Há tragédias que parecem reduzir o mundo a poeira, concreto e silêncio. Depois dos terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho, as imagens que atravessaram as fronteiras mostravam exatamente isso: prédios desabados, famílias desesperadas, mortos, feridos e uma corrida incansável contra o tempo.
Mas a história insiste em lembrar que, mesmo quando a terra treme, há algo que resiste.
Resiste no sorriso de Fabiana Blanco, de apenas 12 anos. Depois de permanecer mais de trinta horas sob os escombros de um edifício, ela foi retirada com um sorriso estampado no rosto. Não era um sorriso de quem ignorava a dor. Era o sorriso de quem havia vencido a escuridão. Em meio ao caos, aquela expressão tornou-se um símbolo de esperança, emocionando milhões de pessoas nas redes sociais. Às vezes, um sorriso é mais forte que toneladas de concreto.
Resiste também na coragem silenciosa de Mariam, de apenas sete anos. Soterrada por dezessete horas, foi encontrada abraçada ao irmão, protegendo-o enquanto o mundo desmoronava ao redor. Há quem diga que heróis usam capas. A realidade, porém, costuma vestir os heróis com roupas simples e lhes dar o tamanho exato da coragem, não da idade.
Resiste ainda no abraço de uma família reencontrada. O resgate de um filho, da nora e dos netos transformou lágrimas de angústia em lágrimas de alívio. Em cenários assim, não existe riqueza maior do que ouvir novamente a voz de quem se ama.
E resiste, sobretudo, na solidariedade de quem escolhe servir. Enquanto muitos olhavam para os escombros com medo, um homem com nanismo atravessou passagens estreitas entre as estruturas destruídas para alcançar pessoas que ainda aguardavam socorro. Onde outros não conseguiam passar, ele encontrou um caminho. Sua estatura limitava o corpo, mas ampliava as possibilidades de salvar vidas.
Os terremotos deixaram marcas profundas na Venezuela. Casas poderão ser reconstruídas. Ruas voltarão a existir. As cicatrizes, porém, permanecerão na memória de quem perdeu alguém. Ainda assim, talvez a maior lição dessa tragédia seja que a esperança nunca chega fazendo barulho. Ela aparece no sorriso de uma menina, no abraço protetor de uma irmã, no reencontro de uma família e na coragem de quem decide entrar onde todos têm medo de ir.
E, no fim das contas, quando a terra treme, percebemos que acima dos escombros permanece a mão de Deus, sustentando vidas com amor e renovando a esperança.

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